O Agronegócio é o Vale do Silício Brasileiro


5 de maio de 2017 | por SP Ventures

 
por SP Ventures
  5 de maio de 2017
 

A difusão do pensamento que persegue o aumento sistêmico da produtividade na agricultura foi uma das principais heranças da Segunda Guerra Mundial. Durante o conflito, a disponibilidade de alimentos no mundo foi severamente restringida pela campanha nazista para cercear o abastecimento das forças aliadas. Com o naufrágio de navios mercantes (que trafegavam produtos de origem agrícola) e a devastação de propriedades rurais, veio a escassez de mantimentos. A maior parte dos países afetados, direta ou indiretamente, instituíram políticas de racionamento de alimentos. Tendo de lidar com a nova realidade, os países aliados – em especial, os Estados Unidos, a Inglaterra e a Holanda – intensificaram o fomento à Pesquisa & Desenvolvimento de novos métodos e tecnologias que permitissem que o agricultor colhesse mais gastando menos. Cada vez mais, a agricultura passou a ser encarada com um olhar industrial.
 


O segmento rural foi significativamente afetado pelo recrutamento das tropas nos países do hemisfério norte. A realocação dos recursos humanos e a mecanização do manejo agrícola se tornaram imprescindíveis.

O segmento rural foi significativamente afetado pelo recrutamento das tropas nos países do hemisfério norte. A realocação dos recursos humanos e a mecanização do manejo agrícola se tornaram imprescindíveis.


No pós-guerra, os investimentos na academia se traduziram em novas práticas de manejo, maquinários agrícolas modernizados e técnicas de melhoramento genético. O acesso à inovação no campo não se limitou aos países do hemisfério norte. A chamada Revolução Verde, ocorrida no decurso das décadas de 50 a 70, baseou-se na transferência tecnológica de inovações agrícolas (sementes melhoradas, fertilizantes, defensivos químicos e equipamentos para mecanização) para as nações com déficit produtivo de alimentos – em meio à Guerra Fria, existia a preocupação de que os países afetados pela falta de alimentos se convertessem ao comunismo.
 

Tratou-se de um importante estímulo para a formação das potências agroexportadoras na América Latina. No México, a Revolução Verde foi responsável por quadruplicar a produção agrícola do país, com destaque para a introdução de novas variedades de trigo. Em terras brasileiras, o movimento apoiou a concepção da EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), incentivou políticas públicas de crédito rural e promoveu a expansão da fronteira agrícola para a região do cerrado. O plantio de sementes geneticamente selecionadas aliado à correção da fertilidade do solo e ao manejo de pragas fez do cerrado uma das principais regiões produtoras de cereais do planeta. Atualmente, mais da metade da soja colhida no país advém do Centro-Oeste, ante cerca de 6% a priori a Revolução Verde.
 

Os novos preceitos internalizados pelo agronegócio brasileiro, que adquiriu um viés industrial, também impactaram na alteração da estrutura agrária. Pequenos produtores familiares, que não possuíam recursos suficientes para se mecanizarem e alcançarem os níveis de produtividade dos grandes agricultores – capazes de se alavancar com crédito de forma relativamente sustentável –, foram incorporados por grandes grupos agrícolas. A ampliação da monocultura e dos latifúndios foi alimentada pelo fornecimento de insumos, aditivos e tecnologias, que trouxeram maior escala produtiva e atenuaram a exposição do cultivo às intempéries ambientais.
 

A Revolução Verde alçou a agricultura mundial a um novo patamar, mas o principal marco tecnológico da história recente para o aumento da produtividade no campo ainda estava por vir. Nos anos 70, a partir da base tecnológica concebida para sintetizar insulina humana, foram desenvolvidos os primeiros Organismos Geneticamente Modificados para a agricultura. A possibilidade de inserir características genéticas em plantas possibilitou a criação de sementes com maior adaptabilidade e resistência. Multinacionais como Monsanto, DuPont e Syngenta se tornaram impérios comercializando sementes transgênicas tolerantes a herbicidas que, também fornecidos por estes grupos, eliminam pragas-alvos e ervas daninha do cultivo. O salto de produtividade oportunizado pela transgenia foi excepcional. Estima-se que, nos últimos 40 anos, a introdução de sementes transgênicas no mercado tenha mais que dobrado a produção agrícola mundial – sem considerar a expansão da terra cultivada.
 




 

Ainda nos anos 70, o estopim da crise do petróleo global levou o Brasil a buscar alternativas energéticas no agronegócio. Apoiado pelo empresário Maurílio Biagi e incentivado pelo Governo Federal, o programa Pró-Álcool visava a substituição gradativa dos combustíveis derivados de petróleo pelo biocombustível. Em vista dos custos, de certo modo, acessíveis da cana-de-açúcar, assim como da vocação tropical para produzir esta commodity, ocorreu a ascensão do setor sucroenergético. Mais de 15 bilhões de litros de etanol foram produzidos nos 10 anos que se seguiram. A indústria canavieira passou a ser uma das mais prósperas na economia nacional.
 




 

Do encontro dos interesses econômicos da indústria sucroalcooleira com as novas técnicas de análise genômica, nasceu uma das principais referências em alta tecnologia aplicada ao agronegócio mundial. Com o apoio do braço de Venture Capital do Grupo Votorantim e de órgãos de fomento como FAPESP e FINEP, pesquisadores egressos da UNICAMP e da UFSCAR conceberam base tecnológica focada no melhoramento genético da cana-de-açúcar; surgia a Alellyx CanaVialis. A companhia propunha o desenvolvimento de variedades de mudas geneticamente adaptadas para propósitos específicos – como a produção de etanol. A empresa foi adquirida pela Monsanto no final dos anos 2000, por cerca de USD 290 Milhões. A Alellyx CanaVialis inverteu os vetores da Revolução Verde, demonstrando o potencial brasileiro para desenvolver e exportar tecnologia de ponta para a agricultura.
 

Aproximando-se do esgotamento do modelo de crescimento propulsionado pelas sementes transgênicas, o mundo se encontra, atualmente, em um novo ponto de inflexão na agricultura. Com a estagnação da área cultivada, a ONU estima que será necessário um aumento de 70% na produtividade agrícola global para alimentar uma população de 9,7 Bilhões de habitantes em 2050.
 

Os avanços tecnológicos em hardware, software e capacidade computacional transformaram diversos setores da economia. Na agricultura não será diferente. A gradual introdução de estações meteorológicas, sensores de solo, sistemas de inteligência agronômica em nuvem, aplicações de inteligência artificial e computação cognitiva, veículos autônomos, plataformas de telemetria, imagens de satélite e drones no campo vem trazendo ganhos de eficiência sem precedentes. O aumento de produtividade necessário para atender às demandas futuras por alimentos será resultante da convergência tecnológica de um arcabouço de inovações. A nova revolução agrícola será caracterizada pela utilização de Big Data e processos automatizados para elevar a precisão das ações preventivas e corretivas, ao mesmo tempo em que são minimizados os desperdícios.

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Agtech  Alellyx Canavialis  Pró-Álcool  Revolução Verde  
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